A magia do retroceder


Não nos contaram que crescer não significa necessariamente ser feliz. Não nos disseram que as vezes o bicho papão que habitava nosso medo do escuro estaria no dia claro e sem nuvens fantasiado de tantas outras coisas, e que o fantasma que não estava escondido debaixo da cama se esconderia na rotina diária que por vezes nos rouba sorrisos. Nos deixaram crescer e não nos mostraram que a beleza não está no fim mas justamente no processo, e que o interessante não é olhar e ver todo o caminho percorrido, mas sim aproveitar a estrada como se cada passo marcasse o fim de uma jornada. Vejo o sorriso perder-se nos dias e me pergunto por que não mantivemos a capacidade de absorver alegria em cada sorriso estampado nos rostos ao nosso redor. Deixamos de enxergar bicho nas nuvens, não vemos mais graça numa bolha de sabão, não acreditamos mais no pote de ouro no final do arco íris e não fantasiamos mais uma viagem pra Nárnia ou para o Reino de Oz... Com o quê ainda sonhamos? A maldade do mundo se escancara bem em frente dos nossos olhos e somos obrigados a aceitar que algumas coisas não tem conserto e outras embora facilmente remendadas, nunca mais voltarão ao que eram antes da queda. Um beijinho não mais sara a dor, o abraço de consolo nem sempre consola e quando a desilusão bate as portas soltamos um sorriso cansado como se a dizer: Ah, mas disso eu já sabia. Deixamos de nos preocupar com a dor do outro e vivemos dias corridos que não nos oferece tempo para olhar o amiguinho passando ao lado e que as vezes precisa apenas ouvir: 'Está tudo bem com você?" Perdemos a pureza no meio do caminho. Deixamos a graça da vida escapar por entre os dedos. Perdemos o amor na primeira esquina. A maldade da qual tínhamos medo na infância passa a ser cotidiana na vida adulta e a corrupção dos valores já não nos chocam mais. Enquanto seguimos em passos irrequietos rumo a não sei onde, o mundo corre a nossa volta num sobrevoar infinito tentando fazer com que o vento sopre em nossos corações o desejo pelo retrocesso... O desejo em retroceder à criança que um dia fomos para encontrar o adulto a qual um dia sonhamos nos tornar. Se dizem que dentro de nós existe uma criança, é preciso soltar-lhe o cadeado e deixá-la correr pelos bosques livre e sem impedimentos pois enquanto corre, o brilho retornará aos olhos, o ar retornará aos pulmões e ao invés de somente sobrevivermos veremos a vida pulsar em cada mínimo centímetro de pele nos mostrando que é necessário sentir, é necessário viver. Crescer é obrigatório, amadurecer é opcional e envelhecer é um privilégio, mas podemos escolher sempre dar as mãos à nossa criança interior mesmo quando as rugas mostrarem os sinais de anos vividos e de experiência adquirida. É preciso que na maternidade do universo aprendamos o mais lindo alfabeto: Amar a vida, Brincar com os obstáculos e Cuidar da inocência mesmo que Diariamente sejamos tentados à esmagá-la...

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