O escoar da ampulheta

Porque a vida é frágil como a areia que escorrega pela ampulheta e escoa-se pelos vãos dos nossos dedos temerosos. Ela se vai em passos largos com o correr do tempo deixando as marcas em nossa pele, mente e coração mesmo que as vezes apenas chegue ao fim antes que pudéssemos sequer adivinhar que havíamos ultrapassado o início ou chegado ao meio do caminho. Segue seu curso entre curvas leves e indefinidas e desemboca sem aviso prévio onde achar ser o seu lugar. Sabemos ser ela finita mas fingimos ignorar sua fragilidade e apenas continuamos vivendo sem perceber que o amanhã é incerto demais para que possamos fazer planos e deixar de lado o presente. É aquela peça do mais caro cristal que pegamos com cuidado em nossas mãos mas que se por um mínimo descuido for ao chão, se parte em milhões de estilhaços ferindo a quem tiver ao redor. Partimos na incerteza e deixamos plantados em corações amigos, um turbilhão de sentimentos que não se pode parar. A dor de quem fica se intensifica com a falta de quem se vai e quando nos damos conta, em nós mesmos não se há mais a animosidade de viver. Se podemos ver seu fim na tênue linha do horizonte porque fingimos que sempre a cada dia, vivemos um novo começo? Palavras se perdem nos anos, ações são deixadas de lado, laços são cortados, dor é imposta aos outros e sentimentos são enterrados na amargura de momentos sem que consigamos nos perguntar se aquilo é mesmo importante para quem sabe que amanhã o cristal pode estilhaçar-se e a areia sumir em meio a tantos grãos. No dia por vir o último grão pode rolar pela ampulheta e o suspiro de esperança pode ser o último sopro de vida em nossas narinas e às pessoas ao nosso redor restarão a dor da perda e o vazio da ausência. É impossível parar o escoar da ampulheta e evitar o estilhaço do cristal ao chão, e mesmo que cuidemos para que essas coisas não aconteçam o destino é astuto demais para levar-nos no meio de uma lembrança que ficará na memória de quem não vai. Pra quê vivermos sempre um plano milimetricamente traçado se no fim ele pode apenas ficar pela metade sem que tenhamos aproveitado o meio do caminho? Como já se diz por aí a vida é aquela eterna piada pronta mas que não tem risos em seu final. Viver deveria ser pra nós bem mais do que apenas existir. As pessoas que povoam nossos caminhos deveriam ouvir de nós todos os dias qual a sua real importância em nossas vidas. As belas ações que insistem em brincar em nossos pensamentos não deveriam ser travadas pela timidez, medo ou estupidez. O sentimento verdadeiro não pode ser trancafiado pelas chaves da amargura só por que não temos capacidade de liberar o perdão. Deveríamos viver como se tivéssemos em mãos o último grão de areia a escorregar pelos vãos, deveríamos amar como se o cristal estivesse em queda livre antes de partir-se em minúsculos estilhaços. Deveríamos captar todos os dias a alegria e gratidão por ainda mesmo que na fragilidade, termos nesse dia a capacidade de viver.

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