Resquício de felicidade
A verdade é que nem sempre percebemos que a felicidade está bem diante dos nossos olhos e por várias vezes deixamos que ela escape por entre os vãos dos nossos dedos sem sequer oferecer resistência. Hoje pra mim aquele dia se transformou em um dia feliz, tão diferente dos dias que vivíamos àquela época que o calor no coração me faz lembrar exatamente do que sentia ao vê-lo naquela cama de hospital porém ainda a sorrir. Era horário de visitas. Uma visita como outra qualquer que realizamos no decorrer dos 54 dias que ele ficara internado. Àquela época eu as vezes não conseguia enxergar beleza nenhuma naquele momento mesmo que ainda pudesse sentir a felicidade pulsar por eu poder ainda vê-lo. Ele estava ali, deitado a esperar-nos como fazia todos dias. Alguém diria (as vezes até com um pouco de verdade) que nos últimos anos ele se tornara um velho ranzinza que vivia a reclamar. Alguém lembraria ainda que todo o processo que ele passara com a amputação de uma das pernas havia tirado de dentro dele por um tempo, a alegria de viver. Talvez por alguns momentos ele sucumbira a depressão e quem sabe talvez ele tenha desejado não estar mais aqui. São tantas coisas a declarar sobre ele. São tantos momentos a relembrar. Tantos sentimentos a sentir. Talvez tudo isso tenha sido verdade. A tristeza. O velho ranzinza. O querer fugir da realidade. O humor difícil do nordestino. Talvez tudo isso tenha mesmo feito parte da nossa história. Mas não naquele dia. Aquele dia ele sorriu. Enquanto no leito de um hospital ele talvez sentisse dores, fadiga, cansaço, vontade de correr... Mas pra nós, ele apenas sorriu. E era naquele sorriso que eu deveria ter encontrado a minha felicidade. Lembro-me de durante todo o período da visita ter permanecido ao seu lado. Lembro de ter segurado sua mão. De ter deixado um beijo estalado em seu rosto. De fazer carinho como eu sempre me acostumei a fazer. E ele sorria. Ele gostava. Ele também mimava-me como a ninguém. Seus cabelos brancos. As rugas em seu rosto. Os olhos meigos e sábios. Estão todos eles marcados na minha memoria e daqui não sai. O período da visita era pequeno diante de um amor e de uma saudade tão grande. E enquanto queria ficar, precisei partir. Parti com um último sorriso. Meu e dele. Quando saia do hospital com o coração apertado e o medo do que poderia acontecer, alguém me disse: "Agora eu sei porque seu avô gosta tanto das suas visitas. Porque ele pergunta sempre por você." Lembro-me de perguntar o porque com a curiosidade escapando em cada palavra, e ela me respondeu: "Porque você mima ele. Fica segurando suas mãos." O que ela não sabia era que era justamente o contrário, eu estava mimando a mim mesma, porque naquelas mãos, encontrava conforto. Aquele dia eu não sabia o que hoje eu sei. Aquele dia talvez eu não tenha conseguido identificar que a morte estava cada vez mais perto e que aquela seria uma das últimas vezes que eu vislumbraria seu sorriso. Talvez se soubesse teria mimado ainda mais. Talvez teria o apertado num outro abraço. Talvez teria feito e falado tantas coisas diferentes para ganhar um outro sorriso. Aquele dia eu não sabia. Mas hoje, eu sei. E hoje quando procuro na caixinha de momentos felizes, aquele dia ainda figura no topo. Aconteça o que for, nunca vou esquecer.
Vovô, quase 5 anos se passaram, mas ainda te lembramos, ainda sentimos saudades, ainda te amamos.
Vovô, quase 5 anos se passaram, mas ainda te lembramos, ainda sentimos saudades, ainda te amamos.
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